Segunda-feira, 13 de Julho de 2009

A MODA EDITORIAL DO MANGÁ

Muita gente acusou a Turma da Mônica Jovem de ser uma jogada oportunista do Mauricio de Sousa, para se aproveitar da enorme popularidade dos quadrinhos japoneses. Depois, veio a Luluzinha Teen, que além da mesma acusação de oportunismo em cima da moda da vez, descaracterizou por completo os personagens. Depois, foi anunciado o Corinthians em mangá e a saraivada de críticas foi ainda maior, pois a qualidade do material parece que deixa muito a desej
E agora, a novidade divulgada na semana passada foi a vida de Michael Jackson em mangá. Como todos os citados anteriormente, esse título está sendo produzido por artistas brasileiros. Não vou cair aqui na surrada discussão sobre um suposto oportunismo ou em qualidades ou virtudes técnicas, narrativas, estilísticas, etc. A questão que me chama a atenção no momento é outra.

O que muita gente se esquece (ou desconhece) é que desenhar é, pra certas pessoas, um trabalho, um sustento que depende de encomenda e pagamento. É uma relação comercial, onde o editor encomenda um trabalho, um valor é negociado, o trabalho é entregue e o valor acordado é pago. (Vale dizer que isso nem sempre funciona tão claramente...)

Em um mercado complicado como o brasileiro, onde os artistas locais, em sua maioria, não conseguem estrutura para se manter e se desenvolver nos quadrinhos, as chances comerciais são poucas e precisam ser agarradas com unhas e dentes.

Por isso, defendo a existência dessas versões mangá. Pode-se discutir formas de se criar produtos que sobrevivam além do modismo e tantas outras questões, como analisar qualidades e defeitos. Mas vendo isso como uma atividade profissional, há um bom sinal nessas adaptações. Elas agitam o mercado, não apenas de publicações, mas profissional. Há revistas sendo produzidas para o grande público, e não apenas para os exigentes conhecedores do assunto e consumidores de sofisticados álbuns ou arrojadas publicações independentes. É produto para as massas (o que não precisa implicar em um produto ruim), algo essencial para uma mídia que já foi muito popular no Brasil e que tem se convertido em leitura para especialistas.

Que venham mais, melhores, mais regulares e dignamente remuneradas adaptações em mangá ou qualquer outro estilo, pois é isso o que pode ajudar a formar um mercado de trabalho sadio, onde há espaço para diferentes artistas desenvolverem seu trabalho de forma honesta. É isso.

Sábado, 11 de Julho de 2009

UM DESENHO PASSO A PASSO

Muita gente já me perguntou sobre método de trabalho. Então, achei que pode interessar, especialmente a alguns alunos e desenhistas iniciantes, como eu chego no desenho final.

Entre ilustradores há os que são totalmente digitais. Eles fazem tudo, do esboço à finalização, nas mesinhas digitalizadoras chamadas tablets, com seus mouses em forma de caneta. Outros, usam programas gráficos para gerar vetores ou formas em 3D. E do outro lado, ainda há os que não aderiram ao mundo digital, trabalhando da forma o mais tradicional possível, com canetas, tintas e pincéis. Mesmo esses precisam escanear seus trabalhos e, frequentemente, enviar tudo por e-mail ou entregar em arquivos digitais.

Eu acredito estar no meio do caminho. Eu desenho tudo à mão (com a ajuda de réguas e gabaritos quando preciso), esboçando com lapiseira 0,5mm e grafite B. Depois, finalizo com canetas de espessuras variadas, geralmente da Staedtler e até a Fine Pen da Faber Castell, que é ótima para cartuns.
No exemplo desta postagem, primeiro foi feito um esboço para o cliente aprovar. A personagem é a Jane, da série de quadrinhos institucionais Os Operadores, que produzo para uso interno de uma empresa da área de call center. Depois de aprovado o lay-out, refiz o desenho em papel sulfite, acertando a proporção da figura, que no rascunho estava meio "cabeçuda", e finalizei com caneta. Então, escaneei a folha em alta resolução (300 dpi), ajustei contrastes de traço para que o trabalho ficasse limpo e fiz pequenos ajustes, eliminei sujeiras, etc... Nessa etapa, sempre aproveito para retocar eventuais traços errados. O computador é fantástico para isso, pois antes o desenhista que errasse algum traço tinha que fazer chatos retoques usando guache branco ou corretivos para então arrumar o desenho.

Por último, apliquei cores no Adobe Photoshop e salvei como arquivo PDF, que é o formato que o cliente prefere usar.

Depois, o desenho ainda tem que ser aplicado em uma página diagramada, mas a ilustração em si, com a combinação de desenho manual e acabamento digital, resultou em uma arte simples, porém funcional.

Terça-feira, 7 de Julho de 2009

SANA 9 - SUPER AMOSTRA NACIONAL DE ANIMES

No próximo dia 16 de julho, irei até Fortaleza (CE) para participar do festival de cultura pop japonesa SANA (Super Amostra Nacional de Animes), o maior evento do gênero no nordeste. O SANA acontece anualmente e está em sua nona edição, sendo um sucesso crescente de público. Com muitas atrações e atividades variadas para o público, espera-se um número aproximado de 50 mil pessoas no evento. A organização é da FCNB - Fundação Cultural Nipônica Brasileira, com apoio de diversas empresas e entidades. É a segunda vez que vou ao nordeste para palestrar, sendo que a primeira foi em janeiro, no AnimePan, em Recife (PE).

Terei uma maratona de atividades, com uma palestra, participação em uma mesa-redonda e também irei ministrar uma workshop de caricatura e mangá. Minha participação no SANA, assim como foi no AnimePan, é resultado de uma parceria do evento com o Consulado Geral do Japão de Recife, que cuida dos assuntos de cultura japonesa na região nordeste.

Estou bastante ansioso para essa participação no SANA, que terá como ilustres convidados os cantores japoneses Hironobu Kageyama (de Dragon Ball Z, Changeman e Cavaleiros do Zodíaco), Hiroshi Kitadani (de One Piece e Ryukendo) e Masaaki Endo (Street Fighter II-V, Cowboy Bebop e Abaranger), sendo os três integrantes do JAM Project. Além deles, também fará show no SANA a revelação das anime songs Kanako Ito. O Kageyama eu tive a honra de conhecer e entrevistar no palco do Anime Friends em 2003. Vai ser ótimo reencontrá-lo e também conhecer os outros.

Entre os convidados nacionais, além de mim, estará lá o cantor, tradutor e membro do JAM Project, meu velho amigo Ricardo Cruz, a desenhista Erica Awano (Street Fighter, Holy Avenger), a roteirista e cosplayer Petra Leão (Victory) e os dubladores Ricardo Juarez (Johnny Bravo, Tygra dos Thundercats e Capitão Átomo em Liga da Justiça Sem Limites) e José Leonardo (Perninha do Tiny Toons, Raito em Death Note, Homem de Gelo em X-Men Evolution e Anakin Skywalker em Star Wars - The Clone Wars).

O SANA 9 acontece de 17 a 19 de julho, no Centro de Convenções de Fortaleza.

Maiores informações:

www.portalsana.com.br

Quinta-feira, 2 de Julho de 2009

FRIO NA ESPINHA

Mais um "sushiman convidado" aqui no Sushi POP. O texto que segue abaixo é de autoria do Franco de Rosa, veterano quadrinhista e editor que conheço há muitos anos. Antes de ser profissional, fui assistir a uma premiação do Troféu Angelo Agostini e pedi um autógrafo a ele, cuja coluna na Folha da Tarde eu sempre lia.

Bom, o Franco passou por uma situação pitoresca e relatou num e-mail que enviou a alguns contatos. Pedi autorização a ele para reproduzir abaixo o que acabou se tornando uma crônica bem divertida - e arrepiante. E para quem conhece os bastidores do quadrinho nacional há algum tempo, certamente irá reconhecer alguns nomes citados. Divirta-se!

CALAFRIO!

Cara... Hoje a tarde me encontrei com o Toninho Mendes (Circo Editora/ Jacaranda/ Devir) na Comix. Tratamos de um projeto sobre vampiros. A reunião foi rápida e tranquila. De lá eu fui com ele até o Conjunto Nacional. Acabávamos de ver a recém-lançada edição em quadrinhos do Chico Xavier, desenhada pelo Rodolfo Zalla.

Eu tinha que levar os textos de um livro sobre piratas para o Zalla ilustrar, e ele ainda não tinha visto a edição do Chico. Resolvi levar um exemplar para ele.

Um parêntesis: A Ediouro mandou uma caixa para o endereço do Eugenio Colonnese, que faleceu antes de concluir a obra e a filha recebeu a caixa... Juntou a familia para abrir o pacote, e não tinha o trabalho do pai ali. Ela não havia acompanhado o processo nem sabia que o trabalho do Colonnese ficara incompleto... Para ela simplesmente o pai fez o Chico. Seria o último trabalho dele para ela... Mas não foi (o último), pois ele deixou em minhas mãos duas HQs inéditas: Uma do Morto do Pantano e outra da Mirza - A Mulher Vampiro. Fim do parêntesis.

Mas indo para a casa do Zalla, eu peguei um táxi. Estava atrasado e com frio. Estava na Av. Paulista. O motorista do taxi era nordestino e com sotaque carregado. Era bem moreno e parecia um indião de novela da Globo. Bem escuro, de cabelo liso. Mas o cara estava pálido. Com olhos esbugalhados, meio assustado... Estava vindo da região do Hospital das Clínicas. Na verdade, estava vindo do velório do Cemitério do Araçá...

Meio gaguejante, foi me falando que passou por uma situação que não conseguia saber como reagir.

Ele tinha pego um passageiro antes de mim, na região do Pacaembu. E passageiro falou pra ele que tinha sofrido um acidente naquele local uns dias atras. Era um senhor de mais de 70 anos. E o passageiro pediu pra ser levado para o cemitério. Ia para um velório. Chegando lá. Disse que não achava a carteira. Pediu pra ele esperar que ele iria pegar o dinheiro com um parente no velório.

A velho não voltava. Então o taxista resolveu ir atrás dele. Era quase R$ 50,00 pela corrida. Chegou lá dentro. E, ao procurar pelo senhor, encontrou o velho. Mas ele estava dentro do caixão, sendo velado. Tinha sido atropelado na véspera.

Imagina se eu não fiquei todo arrepiado com a história.

Fez-se um silêncio. Demorou um tempão pra eu chegar na casa do Zalla. O transito estava ótimo. Mas fez-se aquele silencio funesto. E eu pensando...putz. Peguei um Chico Xavier na Comix. Nem vi a revista por dentro. Tô levando uma cópia para o Zalla. O Zalla não viu impresso também. Mas... Essa história parece uma história da revista Calafrio ou Mestres do Terror (que fizeram a fama do Zalla). Um clichezaço...Mas o taxista não sabe do meu gibi do Chico Xavier aqui na minha mala. Que p*** coincidência de temas!

Quando cheguei, paguei e desci do carro depressa, mas passados alguns minutos, sinto alguém tocar nas minhas costas.

Era o taxista. Eu havia esquecido minha mala no carro com os dois exemplares do Chico Xavier...

Chego em casa, o telefone toca. É o Rubens Cordeiro...autor da Calafrio. Na sequencia, outro telefonema. É o Álvaro de Moya, que ultimamente vem falando que morreu e ressuscitou (teve uma parada cardiaca - felizmente na frente de um médico e num pronto socorro, já faz mais de dois anos.)

Bom...resolvi registrar isso aqui para vocês...Vou desligar o micro e ir assitir futebol...e nem sou corinthiano. Mas tô sozinho em casa. Tem um gibi com capa desenhada pelo Jayme Cortez olhando pra mim ali no canto...
Acho que estou vivendo um poema de Edgar Allan Poe interpretado pelo ótimo Vincent Price.

Vou assistir jogo, não. Vou contar essa história do taxista pro Rubens Lucchetti. Com certeza ele está acordado a esta hora. Lendo um livro antigo em sua poltrona macabra preferida ou datilografando um roteiro em sua velha Remington...

Boa noite.
Abraço.

Franco de Rosa
01/ 07/ 2009 - 23h26

Quarta-feira, 1 de Julho de 2009

FERIADO ÚTIL - WORKSHOP DE ROTEIRO PARA HQ

Graças ao êxito da workshop de roteiro para quadrinhos que ministrei no último dia 20, uma nova data foi confirmada. A que foi realizada em 20 de junho esgotou suas vagas dois dias antes, com algumas pessoas à espera de nova data, que já foi definida.

A atividade será parte do evento Feriado Útil, uma maratona de workshops voltadas à cultura e aprimoramento pessoal que o Instituto Cláudio Ayabe vai oferecer, a preços acessíveis e para grupos reduzidos (15 a 25 pessoas), no feriado paulista de 9 de julho.

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WORKSHOP DE ROTEIRO PARA QUADRINHOS

OBJETIVO
A arte de contar bem uma história, seja para quadrinhos ou qualquer outra mídia (como o teatro e o cinema), passa pela organização de idéias e criação de personagens. Nesta workshop, o aluno vai descobrir que contar bem uma história envolve disciplina e lógica, aliadas à liberdade criativa. E que existem conceitos que são comuns tanto aos quadrinhos ocidentais quanto aos mangás, os quadrinhos japoneses. Já quando o assunto é criação sob encomenda e comunicação institucional, a clareza da narrativa, tão importante para tornar a leitura agradável, faz uma história em quadrinhos se tornar uma importante ferramenta de comunicação de idéias e valores.A workshop vai abordar técnicas de roteirização para que o aluno entenda o plot, script, lay-out e storytelling. Tudo para começar a contar bem uma história ou transmitir uma mensagem.


DIA/ HORÁRIO
09/07/2009 (quinta-feira, feriado em SP) - das 9h00 às 12h30

LOCAL
Instituto Cláudio Ayabe
Endereço: Alameda dos Guatás, 231 - São Paulo/ SP
(perto da estação Praça da Árvore do metrô)

Tels.: (11) 2772-6213

IDADE MÍNIMA
14 anos

Vagas limitadas - As reservas devem ser feitas com antecedência e o aluno deve chegar ao menos 10 minutos antes do início da atividade.

INVESTIMENTO
- Inscrição individual - R$ 45,00
- Inscrição em dupla - R$ 38,00 (cada um)
No mesmo dia, outras workshops irão acontecer, com grandes especialistas em diversas áreas voltadas ao aprimoramento pessoal:

- Concentração e memorização, com Robinson Gessoni
- Oficina de Motivação, com João Climaco e Claudio Uehara
- Limpeza Energética - mental,ambiental e pessoal, com Angela Abreu
- Comunicação no resgate do poder pessoal, com Sueli Rizzo
- Dançaterapia, com Sueli Rizzo


Inscrições e informações:

www.ayabe.com.br

- PROMOÇÃO: Os participantes de qualquer uma das workshops irão ganhar de brinde um exemplar do livro Gambaru - O Poder do Esforço e da Perseverança, de Cláudio Ayabe!

Terça-feira, 30 de Junho de 2009

AUTOR CONVIDADO

SOBRE O NOME DESTE BLOG: Não lembro se expliquei aqui o motivo do nome deste blog. Bom, sushi é aquele prato japonês famoso e delicioso (pelo menos pra mim) que permite diversas combinações. Os mais puristas dizem que o "sushi califórnia" não é um sushi de verdade.

A discussão é parecida com a dos escritores de haikai (aqueles poemas de métrica definida) que debatem se um poema escrito dentro da métrica correta mas que não fale da natureza pode ser um haikai. Pois bem, mesmo se desconsideramos as variantes ocidentais, há ainda uma infinidade de combinações possíveis dentro de um sushi. E foi isso o que motivou. Como aborda vários temas ligados à cultura pop, resolvi que cultura pop (especialmente a japonesa) seria o "arroz", a base do meu sushi cultural, junto com os relatos de minha atividade profissional. E entram, vez por outra,
elementos (temas) diferentes, como comentários sobre mídia, comportamento e questões variadas que chamam minha atenção e me inspiram a escrever.

Verdade seja dita, essa idéia de associar um site de temas variados com um prato que permite muitas variações não é nova. Segundo o editor Jotapê, foi essa ideia que deu origem ao site Omelete, o mais bem-sucedido site de cinema e cultura pop do Brasil e no qual eu já escrevi bastante. Bom, mas voltando a esse humilde blog...

Pela primeira vez, este blog abre espaço para textos de outras pessoas. O espaço é um novo "ingrediente" do Sushi POP, preparado por um "sushiman" convidado.

O AUTOR: José Nagado é meu tio e me mostrou essa crônica que serve como uma boa introdução a uma nova modalidade aqui no Sushi POP, um espaço para crônicas e depoimentos. E para inaugurar, uma crônica que fala sobre... crônicas.

Engenheiro aposentado, o tio Zeca pinta quadros, escreve crônicas, haikais e se interessa por música e artes. De uma forma ou de outra, a arte sempre fez parte de nossa família.

Não sei quem será o próximo convidado ou quando esse espaço será novamente usado, mas sempre haverá lugar para um texto bem escrito. Boa leitura!

O CRONISTA NOSSO DE CADA DIA
Por José Nagado

Hoje mudei minha rotina. Acordei cedo para levar minha filha ao fisioterapeuta, tomei uma média e pão com manteiga numa padaria e ainda não li meu jornal. São nove horas da manhã, já revisei minha penúltima crônica e estou iniciando esta. A crônica mais recente ainda está em período de incubação, para não dizer de “acabação”, quando acabo mudando metade do que escrevi.

Se você está achando que escrevo crônicas para jornais, está enganado. Gosto desse gênero de literatura e escrevo crônicas pelo prazer de escrever. Lia crônicas de Rachel de Queiroz na antiga revista O Cruzeiro

Admiro a capacidade daqueles que conseguem manter leitores cativos com sua crônica diária ou mesmo semanal. Escrever uma crônica por semana parece ser coisa simples, mas não é. Consegui isso durante dez semanas e depois, mesmo tendo disponibilidade de tempo, fiquei duas semanas bloqueado. Nesse tempo tentei desenvolver dois temas, para os quais já havia feito anotações suficientes para escrever várias crônicas. Não consegui. Foram duas semanas terríveis, sem inspiração para escrever crônicas. Comigo, isso ocorre algumas vezes, por dois ou três dias. Duas semanas foi demais.

Sou o leitor solitário das crônicas que faço. E também crítico impiedoso de mim mesmo. Um haicai meu “elogia” minhas próprias crônicas: “Crônica insôssa/ Pedante, impertinente/ Inútil e tôsca”. Além disso, minhas crônicas são pesadas, demoradas. Falta à minha crônica aquela linguagem leve e rápida do prosador acostumado a narrar, descrever, refletir, argumentar, filosofar e outras exigências que esse gênero consagrou.

De segunda a sábado, no Caderno Dois, o time de cronistas do Estadão, alimenta impiedosamente essa minha impressão. Vejo o cronista nosso de cada dia com o seu “pãozinho” quentinho, pronto e acabado, para que nos deleitemos ao café da manhã. Cada um no seu estilo, serve humor, sutileza e inteligência extraídos de aspectos cronicáveis somente capturados por sua argúcia, em temas aparentemente corriqueiros ou noticiários locais ou internacionais.

Quem, senão Matthew Shirts, poderia ter visto “O futuro dos mulherengos nos EUA” e contado para nós numa segunda feira? Tudo embalado com a cultura folhetinesca americana, pronto para o leitor jactar-se do seu conhecimento da vida na terra do Tio Sam em qualquer “papo cabeça”.

Na terça-feira, um José Castelo apresenta, por exemplo, seu “Para que servem as crianças?“. Você reflete: Para que serviria uma crônica desse tipo? Chamar sua atenção para problemas que o noticiário dos jornais trata friamente ou até reforçar seus argumentos sobre uma questão social naquelas reuniões (chatas) de pais e mestres da escola do seu filho, ou quem sabe, torná-lo mais sensível e receptivo nas relações com outros seres humanos, instigar sua inteligência emocional, como diria o consultor em QE.

Na quarta-feira, você acorda e lembra que tem a feijoada no almoço com os amigos. Péssimo hábito de muitos brasileiros, a feijoada da quarta-feira. Seu cronista do dia, Mário Prata, brinda você com um “Quebra de Sigilo Cerebral” ou então, com um “Os ladrões”. Humor fino: Sigilo bancário e sigilo cerebral, quem deixaria de sacar as sutilezas e afinidades dos temas? Profissionais da gatunagem, gente fina os ladrões de antigamente. Seus músculos faciais estarão preparados para rir e seu fígado para trabalhar relaxado, durante e após aquele banquete de colesterol, nas conversas bem humoradas que rolarão com os seus amigos.

Chega a quinta-feira, e você está com problemas que se acumularam durante a semana. Você lê a crônica do Mauro Dias e de repente, "cai a ficha“. Disfarçado numa ficção do cronista, você apanha um gancho ou uma idéia luminosa para resolver um dos seus problemas. Em “Notas sobre a arte de transplantar problemas” Mauro Dias, nos faz refletir sobre os viadutos que construímos (foi o Pitta, ex-prefeito de São Paulo) pensando que estamos resolvendo um gargalo do trânsito, quando apenas estamos (foi o Pitta, repito) transplantando o problema para algum ponto logo adiante. Que isto não se repita.

Finalmente chega Ignácio de Loyola Brandão, digo, chega a sexta-feira. Você terá um longo dia de trabalho, vários problemas a resolver ou metas ainda a cumprir. Mas você tem tudo organizado na sua cabeça. Como uma crônica do Ignácio de Loyola. Tem o conhecimento necessário do assunto, das circunstâncias que deverão ocorrer, das sutilezas comportamentais, e finalmente, do resultado esperado ou direção que deverá dar ao trabalho (ou à crônica, no caso do Loyola). “Só quero um pouco de silêncio”, “Ladrões de hoje, ladrões de Séculos”, “Ele (o sapo) veio trazer a felicidade ?”, são alguns dos exemplos de crônicas do Ignácio. Do mestre Ignácio. (lembrando sua
Oficina Literária, onde orienta novos escritores). Depois de tanto trabalho, no barulhento “happy hour”, você nem vai se lembrar dos impostos que levam seu dinheiro para enriquecer ladrões dos cofres públicos (os "Lalaus" da vida) e vai ficar feliz quando o garção (o sapo) vier rapidamente trazendo seu chope geladinho.

O gostoso da sexta-feira é a expectativa de um relaxante fim de semana. Em casa ou na praia, o fim de semana começa no sábado com a Velha Amiga Raquel. (escreve-se Rachel, como antigamente). Suas crônicas, como a “Velha Amiga”, “O milênio, o rural e o urbano”, “Tragédia no mar” nos trazem a calma sabedoria de quem viveu quase o século passado inteiro e adentra este novo século (e milênio) como uma sólida referência de duas ou três gerações de leitores de crônicas. É preciso dizer mais?

Só mais um pouco. Peço desculpas ao iletrado (“Escrevendo Muderno”) João Ubaldo "PONTO DE VISTA" Ribeiro por não falar dele, que nos obriga a lê-lo aos domingos. Igualmente para o Daniel "SINOPSE" Piza, que me lembra Fernão Lopes, guarda-mor da Torre do Tombo, também nomeado cronista-mor do reino de D.Duarte e para o
VERÍSSIMO Família Brasil, brasileiro de verdade, que acredita no seu povo (Devem existir poemas de Eurico Miranda). Trabalhador, todos os dias tem crônica sua no “Estadão”.

Sexta-feira, faz calor, parece verão.
Nas tardes de verão
O chope bem gelado
Tomo no balcão

Fui.

José Nagado – 19/04/2001

Domingo, 28 de Junho de 2009

LAY-OUT PARA O INSTITUTO GABI

Apresento aqui o primeiro lay-out de uma série de ilustrações que irei produzir para campanhas de divulgação do Instituto Gabi, uma ONG com um trabalho muito bonito de integração social voltado a deficientes (físicos e mentais) e seus familiares. A personagem é baseada na verdadeira Gabi, que partiu deste mundo muito cedo e inspirou um trabalho valoroso conduzido por seus pais.

A entidade fica sediada na região do Jabaquara (zona sul de SP, capital) e ajuda muitas famílias que, além das dificuldades causadas por deficiências físicas ou mentais em um filho, ainda passam por problemas financeiros.

O Instituto depende de colaborações financeiras, doações de materiais, ajuda governamental e do trabalho de pessoas interessadas em doar um pouco de seu tempo para uma causa humanitária. Conheça mais sobre essa ONG e veja como você pode fazer sua parte em prol de um mundo melhor para pessoas com necessidades especiais.


www.institutogabi.org.br

Domingo, 21 de Junho de 2009

WORKSHOP DE ROTEIRO - MISSÃO CUMPRIDA!

No sábado passado, dia 20 de junho, realizei uma workshop de roteiro para quadrinhos no espaço do Instituto Cláudio Ayabe. Normalmente, limito as classes a 15 alunos para poder oferecer um melhor acompanhamento na hora de tirar dúvidas. Ficou estabelecido para essa atividade um número limitado a 12 vagas. Acabaram ficando 13, com alguns na fila de espera aguardando uma nova data.

A classe estava bem interessada, com alguns leitores antigos e pessoas de diferentes idades e áreas de atuação. Vários tinham um bom conhecimento sobre HQs. Isso fez a aula render e fiquei bastante satisfeito com o resultado. Estou acostumado a lecionar e palestrar há mais de uma década e levo isso a sério. Pratiquei oratória, técnicas vocais para utilizar bem a voz, expressão corporal, métodos didáticos e tive bons professores. Ensinar é coisa séria e procuro passar entusiasmo e realidade aos alunos.

O tempo total, de 3 horas e meia, é realmente muito curto para se aprofundar, mas serviu como uma introdução ao tema e permitiu abordar muitas questões sobre as quais um roteirista deve refletir ao organizar suas ideias, personagens e narrativa. Ainda conseguimos criar dois roteiros curtos para cada aluno, com exercícios criativos bem-humorados.

Por enquanto, meu fraterno agradecimento aos alunos, ao pessoal do Instituto, em especial ao seu idealizador que tanto confia em meu trabalho. Registro também aqui minha gratidão aos editores, redatores e jornalistas que divulgaram a atividade em sites e blogs. Em breve, uma nova workshop será agendada e devidamente divulgada na mídia.

O Instituto Cláudio Ayabe, que tem como lema a frase "Aprimorando o potencial humano" organiza cursos e workshops sobre os mais variados temas. Confira em www.ayabe.com.br

Depoimento de um participante:

"Estive entre os participantes e gostei muito da experiência. Apesar de ter se tratado de uma introdução, foi possível refletir e aprender conteúdos importantes não somente acerca do tema tratado, como também, sobre vários outros aspectos do mundo dos quadrinhos, séries e afins." (Sergio Roberto da Silva, 38 anos)

Quinta-feira, 18 de Junho de 2009

O FIM DA EXIGÊNCIA DE DIPLOMA DE JORNALISTA

Conforme divulguei no Boletim Twitter, o STF acabou com a exigência de diploma para o exercício da profissão de jornalista. A exigência era uma prova da força do lobby das faculdades de comunicação, especialmente as "fábricas de diplomas" que despejam inúmeros profissionais despreparados anualmente no mercado. Essa obrigatoriedade começou há cerca de 40 anos, afastando das redações muitos talentosos pensadores que foram contra a decisão e que acabaram migrando para a publicidade. Mas na época da publicação da lei, quem escrevesse alguma coluna ou artigo para algum jornal ou mídia pôde requerer registro de jornalista, mesmo que sequer tivesse o ensino formal completo.

Com o passar dos anos, jornais e revistas foram usando cada vez mais a figura do articulista, um especialista em algum assunto específico, que poderia escrever de modo opinativo sobre um assunto que lhe dissesse respeito, mesmo sem ser jornalista. Foi nessa categoria que comecei a escrever profissionalmente, primeiro na revista SET em 1993 e depois na revista Herói entre 1994 e 2000.

Mesmo escrevendo regularmente e sendo remunerado por isso, jamais me assumi como jornalista. Fiz resenhas, publiquei notícias, conduzi entrevistas variadas, mas sempre na categoria "especialista". Dos mangás e seriados japoneses, migrei para resenhas sobre livros e CDs no Omelete, onde escrevi por bastante tempo, mas continuei sendo um redator e não um jornalista. Em 2001, trabalhei por curto período de tempo na editora JBC, sendo editor-assistente do portal (que na época acabou sendo abortado pelo patrocinador) e também editor do antigo site Henshin. Sempre alguém me perguntava onde eu havia estudado e sempre faziam cara de espanto quando eu dizia que não era jornalista. Alguns já se indignaram por achar que eu "me passava por jornalista". Dei palestra na UniSantos e Uninove (entre outras) e até fiz parte de uma banca examinadora de um TCC na USP. O meio acadêmico não é estranho para mim, afinal de contas.

Agora, com a queda da obrigatoriedade de diploma, posso até me apresentar como jornalista (apesar disso ainda soar estranho para mim). Não que eu já não tivesse trabalhado como um.

Atualização (17h30) - Segundo o ministro do STF
Ricardo Lewandowski, empresas ou órgãos públicos podem exigir, no entanto, algum diploma, como história, sociologia ou comunicação. Os limites, ainda, estão imprecisos e acredito que o mercado, a duras penas, recupere a auto-regulação que já houve em tempos passados.

Segunda-feira, 15 de Junho de 2009

DANI EM UM LIVRO DIDÁTICO (NÃO-AUTORIZADO)

Outro dia, uma aluna mostrou um livro de português que ela usou na oitava série e que tinha um trabalho meu. Eu já desenhei para livros didáticos, mas nunca para um livro de português. Qual não foi minha surpresa ao ver páginas da HQ Dani - Pequenos gestos, publicada no álbum Mangá Tropical (Ed. Via Lettera) em 2003. Havia um quadrinho em uma página e depois, nada menos que seis páginas consecutivas ocupando seis páginas do tal livro. Eram justamente as últimas de uma HQ de apenas 13 páginas. Ou seja, mataram a história. Ainda tinha uma interpretação de texto em cima da HQ mostrada.

Por um lado, fico lisonjeado que esse livro tenha apresentado meu trabalho a centenas, talvez milhares, de jovens. E meu nome estava creditado corretamente. Porém, eu jamais fui consultado sobre isso. Simplesmente pegaram o álbum, escanearam as páginas e usaram.

Isso num livro que foi (e ainda é) vendido. Talvez eu autorizasse a reprodução de alguma passagem, mas dificilmente da forma como fizeram. Ou usa a HQ inteira (o que eu poderia até ter autorizado), ou usa algum trecho, não metade da história.

O livro em questão é o Tecendo Linguagens - Língua Portuguesa - Oitava série, da editora IBEP, lançado em 2006.

Comuniquei à Via Lettera, que editou o trabalho e estamos averiguando o que pode ser feito, pois não me parece muito correto o modo como as coisas foram feitas.

Sábado, 13 de Junho de 2009

O QUE ESTE BLOG É E O QUE NÃO É

Este blog ficou vagando no limbo por um tempo enquanto eu passava por um período um tanto turbulento e atribulado, que ainda não se encerrou. Tempo livre é um item valioso nos dias atuais, e que deveria ser aproveitado para aliviar o stress. Mas no ponto em que estava, comigo tendo trabalhos a divulgar e com uma excelente visitação para um blog modesto e sem muitas atualizações, tenho que encarar este blog como um apoio a meu trabalho. Que continua agitado, não importa a carga de stress que esteja sobre minha cabeça. Como eu falei ao meu amigo Nick quando disse que queria fazer uma página de HQ com texto dele, "quem quer, arranja tempo". E estou arranjando, mas resolvi fazer um balanço sobre o que é este veículo para mim.

O Blog Sushi POP é um veículo para que eu publique textos sobre assuntos que gosto, normalmente ligados a quadrinhos, música ou cultura pop japonesa. São assuntos que fazem parte da minha vida profissional há anos. Aliás, uma das funções primordiais deste blog é divulgar minhas atividades profissionais, que dependem de serem divulgadas.

Este é um espaço para trazer ao leitor interessado informações sobre os bastidores da profissão de desenhista, com suas peculiaridades e desafios.

Também é um canto livre onde eventualmente publico minhas opiniões sobre assuntos variados, sem relação alguma com cultura pop. Dois temas que me interessam são comportamento e mídia. Sou bastante crítico com alguns temas e em alguns momentos não sou nada condescendente. No espaço Twitter, publico também pensamentos rápidos e muitas vezes incisivos sobre alguns temas gerais. Isso pode incomodar quem gosta dos assuntos criticados.

Se, por exemplo, eu ataco o conceito do Big Brother, fãs desse tipo de show não devem se sentir ofendidos. Se eu manifesto opiniões corrosivas sobre algum trabalho ou música, quem é fã do que eu não gosto tem duas opções: registrar seu desagrado ou simplesmente deixar de ler. Tudo no campo das idéias. Tenho parentes e amigos que amam Big Brother, novela, música sertaneja, emos, funk, Código Da Vinci, que fumam sem se importar com quem está ao redor, etc... Que ninguém veja meus textos como ataques pessoais.

Este é o MEU blog e não uma tribuna livre com obrigação de ser imparcial, de servir à sociedade ou com a pretensão de formar opiniões. Entre acertos e erros, é um espaço pessoal, onde escrevo o que dá na telha, o que é diferente de quando sou requisitado para escrever um artigo ou resenha. Se algo aqui o ofendeu ou ofende, minhas sinceras desculpas, mas isso é apenas manifestação de liberdade de expressão, não um dedo apontado na cara de ninguém. Eu espero que as centenas de leitores que retornam regularmente (segundo o Google Analytics) sejam pessoas que ao menos apreciam a forma como me expresso. E afinal de contas, poder escrever um blog é algo bastante agradável para mim, um momento onde posso desviar um pouco a atenção da rotina.

Enfim, obrigado aos que sentiram falta deste blog. Talvez eu não consiga mesmo postar com mais regularidade do que antes, mas tentarei escrever sempre algo novo, entre um trabalho e outro. Por isso, continue acompanhando (e comentando), eu espero.

Terça-feira, 2 de Junho de 2009

HISTÓRIA E ALERGIA - UM LIVRO ESSENCIAL

A medicina é daqueles assuntos sobre os quais todos deveriam entender um pouco, pois lida com nossa vida e saúde. Mas para os leigos, é um assunto por demais complexo, cujo conhecimento, mesmo básico, parece destinado apenas aos profissionais que se vestem de branco.

Dentro da medicina, o tema alergia é daqueles que tem feito cada vez mais parte da vida das pessoas. Com cidades tão poluídas e com os hábitos alimentares marcados por produtos repletos de corantes e substâncias químicas, é difícil não ter algum caso familiar de algum tipo de alergia ou doença respiratória, de pequena ou grande intensidade.


Para entender melhor o que tem se configurado cada vez mais um assunto da vida moderna, uma grande dica é o livro História e Alergia - Para entender uma doença moderna (Ed. Via Lettera), escrito pelo Dr. Raul Emrich Melo, especialista em alergia-imunologia e pediatria, mestre e doutor pela UNIFESP e palestrante. Com grande habilidade e um grande senso didático, o autor discorre sobre muitos assuntos relacionados ao tema alergia usando linguagem coloquial e agradável, sem tirar a seriadade que o assunto merece.

Asma, rinite alérgica, bronquite, efeitos da poluição, vacinas e suas reações, tudo é explicado de modo bastante esclarecedor. Mesmo o hermético jargão médico é explicado com uma clareza desconcertante, dando aos leitores condições de entender melhor causas, efeitos e tratamentos de diferentes tipos de alergia. Os capítulos são curtos, oferecendo uma excelente porta de entrada para entender diversos aspectos da alergia através dos tempos.

O autor transmite não somente aquela tranquilidade que todo bom médico deve passar, mas também oferece uma leitura agradavel, com um texto muito bem escrito. Ao final, não dá pra saber se é um médico que se revela um grande escritor, ou um escritor que por acaso é um grande médico.

História e Alergia
Autor:
Dr. Raul E. Melo
Editora: Via Lettera

Formato: 14x21 cm, com 112 páginas
Preço: R$ 26,00
Compre no site da editora clicando aqui.

Site do autor: www.raulmelo.com.br

Sábado, 30 de Maio de 2009

MEMORIZANDO ROSTOS (E MUITO MAIS)

Essas carinhas ao lado são parte de um lote de ilustrações que produzi para um livro a ser lançado sobre técnicas de memorização do professor Robinson Gessoni. O lance aqui foi criar rostos com caracterizações variadas e o máximo de simplicidade. Originalmente, seriam utilizadas fotos, mas o autor acabou optando por usar meus desenhos. Acho que funcionou bem para o que ele queria.

O mais interessante nesse trabalho tem sido tomar contato com um tema sobre o qual sempre quis saber. Como sou tradicionalmente um distraído e péssimo para lembrar nomes e rostos (sou o rei dos foras nesse quesito), está sendo legal aprender um pouco sobre esse assunto, tão útil para qualquer pessoa.

Terça-feira, 26 de Maio de 2009

TWITTANDO PENSAMENTOS

Fenômeno da internet, o Twitter só permite postagens de até 140 caracteres, o que exige bastante poder de síntese (exceto para quem fica escrevendo frases fragmentadas). Mistura de microblog com rede social, permite uma agilidade grande na difusão de informações e dicas, além de permitir saber o que gente interessante anda fazendo. Bom, nem sempre, visto que muitos publicam inutilidades como "Fui tomar café.", "Espirrei", "Acabei de voltar do banheiro.", (Who cares?) e por aí vai. Mas tem muita coisa interessante e dá pra pegar informações up-to-date e dicas de links.

Em minha página, cujas postagens mais recentes você vê na lateral deste blog, eu posto frases legais que vejo, divulgo matérias interessantes, comunico sobre trabalhos em andamento, participações em eventos, além de linkar músicas que gosto e postar alguns pensamentos sobre a vida, trabalho, arte e assuntos da atualidade. É uma chance de soltar opiniões sem ter que explicar muito, captando um momento, às vezes de forma ranzinza, outras com lampejos de alguma sabedoria. Abaixo, algumas frases pessoais que resolvi deixar registradas aqui:

* Uma definição para "imbecil": "Aquele cara que deixa o som do carro no último volume, obrigando outros a ouvirem seu mau gosto musical."

* J-Rock está virando a nova modinha. Nem vou entrar no mérito musical, que aí é gosto. Mas a maioria é "poser" demais. Não tenho paciência.

* Polêmica burra essa do Serra contra uma HQ. Compraram sem ver que não era para crianças. O problema é culparem a HQ, o que já rolou.

* Nunca confie em gente que só é boa, generosa e "sincera" com quem interessa ou pode retribuir, seja no campo pessoal ou profissional.

* Geralmente, reality show é isso: Show vazio sobre uma realidade ensaiada.

* As bancas estão abarrotadas de revistas de fofocas, "celebridades" e novelas. Ler, o povo até que lê. Mas é cada bobagem...

* Lecionando, já conheci muitos jovens talentosos que, por teimosia, deixaram de progredir e alcançar seu potencial. Mas eu continuo tentando.

* "Olha, fulano coçou o nariz.", "Você viu? Cicrano bocejou!", "Quem ficou com quem?" Juro que não entendo o "fascínio" dessa bobagem de BBB.

* Dispenso futilidade, hipocrisia e ver gente oportunista fazendo nada. Por isso não perco meu tempo vendo BBB.

* Hoje em dia, se confunde mercado profissional de HQs com mercado de publicações. Muitos publicam gibis, mas poucos vivem disso.

* Pra mim, é cada vez mais difícil ouvir música atual: emos, sertanejos, axés, funks, pagodes... Socorro!!! Viva o CD e o MP3 player!

CITAÇÕES DE PERSONALIDADES

"Ensinar é aprender duas vezes." - Joseph Joubert

"Tente ser uma pessoa de valor, não de sucesso." - Albert Einstein

"Não existe arte sem esforço." - Jean-Louis Trintignant

"Os homens que tentam fazer algo e falham são infinitamente melhores do que aqueles que tentam fazer nada e conseguem." - Lloyd Jones

"O que julga pelas aparências quase sempre se engana." - Papa João XXIII

"A inteligência não é não cometer erros, mas saber resolvê-los rapidamente." - Bertold Brecht

"De que adianta usar todas as notas? Basta usar as melhores." - Miles Davis

Leia mais em twitter.com/nagado

Sexta-feira, 22 de Maio de 2009

ESCREVENDO ROTEIROS PARA QUADRINHOS

No dia 6 de junho (sábado), vou ministrar uma oficina de roteiro para quadrinhos. Nela, vou transmitir conceitos básicos e dicas baseadas em minha experiência pessoal para ajudar os interessados a montar um roteiro, seja em estilo realista, humorístico ou de aventura. O mangá também será abordado, com suas peculiaridades narrativas que o diferenciam da maioria dos quadrinhos ocidentais.
A atividade vai acontecer no Instituto Cultural Cláudio Ayabe, que fica perto do metrô Praça da Árvore. Curiosamente, durante 8 anos eu lecionei quadrinhos lá perto, na escola CEPADE. No mesmo dia, o Instituto vai oferecer cursos de Concentração e Memorização (com Robinson Gessoni) e Pedras e Cristais (com Angela Maria L. Abreu).

Segue abaixo o press release da minha atividade:

OFICINA DE ROTEIRO PARA QUADRINHOS

OBJETIVO
A arte de contar bem uma história, seja para quadrinhos ou qualquer outra mídia (como o teatro e o cinema), passa pela organização de idéias e criação de personagens. Nesta workshop, o aluno vai descobrir que contar bem uma história envolve disciplina e lógica, aliadas à liberdade criativa. E que existem conceitos que são comuns tanto aos quadrinhos ocidentais quanto aos mangás, os quadrinhos japoneses. Já quando o assunto é criação sob encomenda e comunicação institucional, a clareza da narrativa, tão importante para tornar a leitura agradável, faz uma história em quadrinhos se tornar uma importante ferramenta de comunicação de idéias e valores.A workshop vai abordar técnicas de roteirização para que o aluno entenda o briefing, plot, script, lay-out e storytelling. Tudo para começar a contar bem uma história ou transmitir uma mensagem.

FACILITADOR
Alexandre Nagado - Profissional da área de história em quadrinhos e ilustração, possui trabalhos publicados nas editoras Abril, EBAL, Escala, Trama e Via Lettera. Na área de quadrinhos institucionais, produziu histórias para o Governo do Estado de São Paulo (Projeto Tietê e DAEE - Depto. de Águas e Energia Elétrica), Pão de Açúcar, Santander Banespa, Votorantim, ABB, Fidelity Processadora e Serviços, Revista Paróquias e diversos outros clientes.

DIA/ HORÁRIO
06/06/2009 (sábado) - das 9h30 às 13h00

LOCAL
Instituto Cláudio Ayabe
Endereço: Alameda dos Guatás, 231 - perto da estação Praça da Árvore do metrô.
Tels.: (11) 2772-6213 e (11) 5589-8574

IDADE MÍNIMA
14 anos

Vagas limitadas

INVESTIMENTO
- Inscrição individual - R$ 45,00
- Inscrição em dupla - R$ 38,00 (cada um)

Inscrições:
www.ayabe.com.br

- Atualização: A workshop de roteiro não pôde ser realizada por mim no último dia 6, sendo transferida para o dia 20 de junho (sábado), no mesmo horário e com as mesmas características.

Quarta-feira, 20 de Maio de 2009

OS QUADRINHOS E O PRECONCEITO DA SOCIEDADE

Ontem, o governador de SP, José Serra, (PSDB) declarou que o álbum de HQ "Dez na Área, Um na Banheira e Ninguém no Gol" (Ed. Via Lettera) é de "muito mau gosto" por conter palavrões e temas sexuais. A notícia repercutiu e foi tema ontem na TV Globo, na Folha de São Paulo, na rádio CBN e em quase toda a mídia. A HQ foi comprada pelo governo para ser distribuída a alunos da terceira série do ensino fundamental, com 8 anos em média.

Tudo foi um enorme mal-entendido e fruto de total falta de conhecimento sobre o que foi comprado. O trabalho, de qualidade e cheio de méritos artísticos, NÃO foi feito para crianças. É aquele velho problema com o qual os profissionais e leitores de longa data sempre se deparam: a maioria da sociedade sempre vai achar que HQ é coisa pra criança. Aí, alguém que gosta de HQ lá no governo indica a compra de alguns títulos pra distribuição em escolas e bibliotecas infanto-juvenis, mas não checa direito o conteúdo.

Do outro lado, quem vende deveria ser informado qual o público-alvo que vai receber o material. Ora, se fosse para alunos do colegial, problema nenhum haveria. Só fazendo um paralelo com outras mídias que não sofrem de preconceito, imaginem se o governo comprasse o filme Carandiru e distribuísse a crianças de 7 anos. Não preciso falar mais nada, não é?

Acho que os profissionais de HQ vão passar o resto da vida (e as gerações seguintes) eternamente tendo que explicar aos não-iniciados algo que é óbvio no Japão, EUA, França, Inglaterra, Portugal, Argentina e demais países cujo povo lê muito: Histórias em quadrinhos não são leitura somente para crianças. Existem quadrinhos de todo tipo e para todo tipo de público, assim como o cinema, teatro, música e qualquer outra mídia.


Finalizando, a ACB - Associação de Cartunistas do Brasil publicou ainda ontem uma nota falando sobre o caso, nota esta que reproduzo abaixo:

ASSOCIAÇÃO DOS CARTUNISTAS DO BRASIL – ACB

Rua Lourenço Rodrigues Souza, 174 – São paulo/SP – CEP 02760-050 – Tel 011 3851 5221

www.hqmix.com.brhqmix@hqmix.com.br

Sobre reportagens a respeito do livro “Dez na área, um na banheira e nenhum no gol” da Editora Via Lettera.

Hoje, dia 19 de maio, na mídia, houve a repercussão de uma matéria sobre o mau uso do livro de quadrinhos acima citado onde vários autores importantes da área desenharam sobre o tema futebol.

O livro, premiado e trazendo desenhistas também premiados, inclusive fora do Brasil, foi mostrado como material de linguagem chula e arte sexista imprópria para distribuição para crianças da rede pública de ensino como material paradidático.

A Associação dos Cartunistas do Brasil, que vem participando por anos da luta pelo reconhecimento do autor brasileiro na área dos quadrinhos e humor gráfico, não pode deixar de dizer que as informações colocadas, dessa forma na mídia, podem depor contra um trabalho sério nas escolas de utilização de publicações de quadrinhos como ferramenta de incentivo à leitura e cultura nacional.

Fica evidente que houve um descuido de quem escolheu esse título para distribuição para o ensino básico, mas não se pode dizer que os artistas estão deturpando algo como fica a impressão das matérias. Uma criança de 9 anos assiste ao futebol com o pai, que não deve economizar em seu linguajar diante da emoção que o esporte exerce sobre seus torcedores. As transmissões de futebol não conseguem evitar o som dos palavrões cantarolados pelas torcidas. Portanto não é criação dos desenhistas a linguagem chula, mas simplesmente estão colocando o que todos vêem num jogo de futebol pelas transmissões livres de censura.

Ao mesmo tempo, a forma como são colocadas as mulheres no futebol com as “Maria Chuteira” ou “travestis” que se relacionam com jogadores, nas reportagens, que não são também censuradas, só podem ter um reflexo nas histórias dos autores do livro.

O que vemos é uma crucificação de um trabalho sério de artistas e da editora, muito bem conceituados e que podem ser sim distribuídos em universidades para o estudo do mundo do futebol e sua influência na cultura popular.

A utilização dos quadrinhos na sala de aula é confirmada por educadores como fonte importante para agregar valor de conteúdo educacional para o interesse da criança em várias matérias do currículo escolar. Isso foi conquistado depois de muita luta contra o preconceito que antes havia e que caiu por terra ao vermos em cada lar uma criança de cinco anos já se interessar por leitura quando vê revistas infantis na sua frente.

Apenas houve um equívoco na escolha pela faixa etária a que se destinava os livros e não uma publicação censurável como pode ter passado para o grande público.

Pedimos aos meios de comunicação que, sempre que houver algo tão importante como esse tema, também coloquem a opinião de uma pessoa especializada na área, que tenha algum conhecimento da linguagem em discussão.

José Alberto Lovetro (JAL)

Associação dos Cartunistas do Brasil - ACB

Terça-feira, 19 de Maio de 2009

GUNDAM E NEIL SEDAKA

O que é que o veterano cantor e compositor pop Neil Sedaka (Quem? Calma que eu explico...) tem a ver com os poderosos robôs gigantes da franquia japonesa Mobile Suit Gundam? Musicalmente, muito, já que os temas de abertura e encerramento da saga Zeta Gundam (de 1985) são versões de músicas de Sedaka. Eu conheci primeiro as versões em japonês das músicas, que soam como genuínas canções de animê (anisongs) com pegada J-Pop. Mas pesquisando, vi que as músicas tinham suas melodias creditadas a Neil Sedaka.

Nascido em 1939 nos EUA, Neil Sedaka fez sucesso mundial entre o final da década de 1950 e início de 60, com canções como "Oh, Carol", "Breakin' up is hard to do" e "Calendar Girl". As músicas usadas em Gundam são da safra dos anos 1970 e não são muito conhecidas. Certamente, algum produtor de Gundam devia ser um grande fã do cantor.

Primeiro, a abertura de Z Gundam, a música Z Toki wo koete:


Agora, compare com a versão original de Neil Sedaka, intitulada "Better days are coming":


Better Days Are Coming - Neil Sedaka

Encerramento de Z Gundam, a música "Hoshizora no believe":


Ouça agora a versão original, "Bad and beautiful":

Bad and Beautiful - Neil Sedaka

Ambas as canções foram interpretadas em japonês por Mami Ayukawa. Ainda houve uma música inédita de Sedaka usada na série, a "For us to decide", que virou "Mizu no hoshi he ai wo komete". As músicas foram licenciadas no Japão, mas por questões de negociação de direitos autorais nos EUA, quando Z Gundam foi lançado por lá, as músicas tiveram que ser trocadas.

Abaixo, a versão ao vivo do tema de abertura com Mami Ayukawa se apresentando no show Super Robot Spirits 2003.

Segunda-feira, 18 de Maio de 2009

UMA QUESTÃO SOBRE ÉTICA

Existe gente que acha que desenhista cobra por área desenhada no papel, ou por quantidade de tinta que deixa no papel. Quando eu desenho para pessoas físicas é quando me deparo com o maior número de absurdos na percepção sobre o que faz um desenhista. Uma candidata a cliente pediu um orçamento de caricatura para convite de casamento.

No meu site já tem os preços anotados, mas ela queria saber quanto eu cobraria para usar um desenho pronto (que ela pegou no site de um concorrente) e só trocar os rostos desenhados pelo rosto dela e o do noivo. Por quê ela não pediu ao autor do desenho original? Certamente porque achou caro o desenho dele e tentou ver se conseguia um "precinho camarada" com outro. Afinal, o desenhista que pegar o trabalho não vai ter que desenhar uma folha inteira, só os pedacinhos em que aparecem os rostos.

Expliquei que não faria isso por ser anti-ético e que eu faria um novo desenho, no meu estilo (como no exemplo ao lado), cobrando normalmente para isso. Ela não respondeu mais, obviamente. É cada uma que aparece...

Quarta-feira, 13 de Maio de 2009

DANI - DEIXE O AMOR AMADURECER

Depois de muito tempo fazendo só quadrinhos institucionais, finalmente desenhei uma HQ autoral. Graças a uma rápida troca de mensagens aqui neste blog, meu amigo Nick Farewell se disse interessado em escrever uma HQ da Dani, personagem que usei somente em 3 histórias curtas até hoje. Por causa da eterna falta de tempo e por não fazer HQ autoral há anos, pedi ao Nick um roteiro de somente uma página, a título de "aquecimento" para depois desenhar algo mais elaborado.

Daí, ele veio com um pequeno poema para ser ilustrado. Quebrei a cabeça por uns dias e resolvi
interpretar o texto com uma narrativa mais ou menos linear. Fiquei satisfeito com o resultado e resolvi compartilhar aqui no blog.

Apesar de ter sido feito sem comprometimento com nenhuma publicação, o trabalho foi feito pensando em mídia impressa, pois é assim que eu vejo uma HQ. Então, preparei um arquivo PDF (2,79MB) pra qualquer um poder salvar e imprimir. É só clicar no link abaixo, que vai apontar para um site de armazenamento temporário de arquivos, o Sendspace. Mas se quiser apenas ver em tela, pode clicar na imagem ao lado e ver a página ampliada.

Dani - Deixe o amor amadurecer

*****
Acho divertido sugerir uma trilha sonora para a leitura. Então, antes de ler a HQ, clique no player abaixo e vá ouvindo "Here, there and everywhere", clássico dos Beatles na voz de Rita Lee.


08. Here, There And Everywhere - Rita Lee

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O Som e a Fúria - Este é o nome do blog do Nick, cheio de tiradas filosóficas e bem-humoradas sobre seu tema favorito: a vida.

Sexta-feira, 8 de Maio de 2009

OS INDICADOS AO TROFÉU HQ MIX

Saiu a lista de indicados ao Troféu HQ Mix, a mais badalada premiação dos quadrinhos no Brasil. O mercado de publicações anda aquecido, mas o mercado de trabalho anda péssimo, o que é uma contradição que não parece ter solução a curto prazo. Financeiramente, não há o que comemorar, mas eventos como o HQ Mix atraem a atenção da mídia e isso, em última instância, acaba sendo algo benéfico.

Particularmente, estarei torcendo por duas indicações que terão meu voto. Uma delas é para o álbum Front Especial 100 Anos de Imigração Japonesa (categoria Publicação Mix), cujo prefácio é de minha autoria. A outra é a peça de teatro O Caderno da Morte (categoria Adaptação para outro veículo), adaptação do mangá Death Note e que tem meu amigo Miguel Atênsia no elenco. Ainda me lembro quando, na viagem de intercâmbio no Japão que fizemos em março de 2008, o Miguel comentou que seu grupo de teatro estava planejando negociar os direitos para adaptar Death Note, um dos mangás mais aclamados dos últimos tempos. Deu tão certo que virou sucesso de público e agora está concorrendo a esse importante prêmio.

Parabéns e boa sorte aos indicados!

Quarta-feira, 29 de Abril de 2009

ÉTICA, RESPEITO À VIDA E O JORNALISMO-URUBU

Um grande mito que se diz sobre o jornalismo é que ele deve ser imparcial, um testemunho da História. Mas isso nem sempre (ou quase nunca) funciona. Jornalista é um profissional de informação que deve ter uma boa bagagem cultural para colocar fatos no contexto e relatar acontecimentos com clareza e desenvoltura para que o cidadão possa se informar e formar suas opiniões sobre o mundo. Mas é impossível ser totalmente imparcial. A forma de se apresentar um relato, a ordem das citações, o uso de vírgulas, tudo pode ser interpretado à luz de fatos externos.

Querendo ou não, as opiniões transparecem no resultado final e é assim mesmo que funciona. Por isso é essencial o bom senso para ser um bom formador de opinião.

Porém, muitas vezes, o jornalista acaba servindo aos interesses políticos da empresa onde trabalha. E quase sempre, os interesses são econômicos. É a luta para se manter no mercado cada vez mais competitivo, rápido, e nivelado por baixo. Quando o Papa Bento XVI veio ao Brasil, os canais deram sua cobertura. Incluindo a Record, que serve à Igreja Universal do Reino de Deus. Curiosamente, no programa dominical da Record, disseram que "várias pessoas" foram ver a missa do Papa, enquanto a câmera mostrava uma dezena de fieis, focalizados num canto, fazendo parecer que era pouca gente no estádio do Pacaembu. Nada de tomadas aéreas como as que foram vistas em outros canais. No mesmo programa, mostraram a inauguração de um templo da Universal na África. Aí, não só usaram tomadas panorâmicas pra mostrar milhares de pessoas reunidas, como também usaram câmeras com lente grande angular, que cria uma ilusão de amplitude maior. Realmente, muito imparcial! E muitas vezes, a "imparcialidade" visa saciar a sede de audiência e de desgraças.

*****
Quando morreu a garota Isabella no caso que causou comoção nacional, havia aquela cobertura afoita e sensacionalista de todos os canais. Aí, um dia entrou no programa da Ana Maria Braga o repórter Cesar Tralli trazendo novidades sobre o caso. A apresentadora perguntou qual seria a programação das investigações naquele dia. Ao que o Tralli deu uma risadinha e disse: "Pô, mas se eu contar eu vou dar dica pra concorrência, né?" Já tinha virado circo a cobertura do triste caso.

No caso de outra criança foi brutalmente assassinada há alguns anos, o menino João Hélio, houve também uma comoção nacional e todos os canais, ávidos por novidades ou detalhes, só falavam disso. Num programa da Record, a apresentadora de então, a Patricia Maldonado, chamou uma materia sobre a morte horrível do garoto, que foi arrastado fora do carro. Quando a matéria acabou, entrou um close de rosto da apresentadora sorrindo e dizendo: "Agora vamos falar de um assunto bem divertido." Meu Deus, cadê a sensibilidade daquela mulher perante a locução de um crime hediondo que vitimou uma criança? A Luciana Liviero, da Record, é pródiga em abrir um largo sorriso depois de narrar uma morte. Britto Jr já vibrou ao anunciar imagens ES-PE-TA-CU-LA-RES de um acidente aéreo onde o piloto morreu. A audiência é tudo o que importa. Não só na Record, claro, que parece que estou sendo implicante. Aqueles que têm idade para isso, podem se lembrar de como a Rede Globo foi decisiva na eleição do presidente Fernando Collor em 1989, um dos maiores disparates da História recente do nosso país.

Chutando a ética e passando por cima da imparcialidade, a Globo ajudou a eleger Collor e só passou a noticiar os desmandos de seu governo quando a situação já começava a ficar feia. E depois ficou se vangloriando que ajudou a derrubar o Collor, denunciando irregularidades e despertando o povo para a cidadania. Tá bom...

*****
Apresentadores mais responsáveis mostram, pelo menos, um ar consternado ao final de uma matéria sobre uma morte violenta por respeito à família da vítima e então chamam um assunto mais neutro. Não se espera que o telespectador, após ver e ouvir fatos perturbadores ou trágicos, caia na gargalhada vendo pegadinhas ou coisas do gênero, sendo submetido a uma montanha-russa de imagens e fatos onde a vida não tem importância.

Existem bons jornalistas? Claro que sim e conheço vários jornalistas admiráveis. Para citar alguns mais famosos, Ricardo Boechat, Monica Waldvogel, Heródoto Barbeiro, Maria Lydia Flandoli e alguns outros conseguem manter dignidade na grande mídia. Sou grande admirador também do genial Mino Carta, um feroz crítico da exigência de diploma para o exercício da profissão de jornalista, uma vitória do lobby das faculdades de comunicação. Jornalismo exige cultura, espírito crítico, talento para a redação, capacidade de comunicação. E isso não necessariamente passa por uma formação acadêmica, mas isso é assunto para outra discussão.

O mundo hoje está rápido demais e a morte, não só para a maioria dos jornalistas, está demasiado banalizada. Falta ética, respeito e cidadania, exatamente por parte de quem se diz promotor de tais valores. Infelizmente.

Segunda-feira, 27 de Abril de 2009

ANSIEDADE ARTÍSTICA

Em todos os cursos e oficinas de desenho, mangá ou quadrinhos com os quais trabalhei até hoje, vejo um mesmo erro se repetir infinitamente: a pressa no resultado final.

Desenhistas profissionais fazem esboços preliminares até chegar a um que agrade. Depois, trabalham melhor o desenho até uma forma mais refinada. Somente então entra a finalização, que pode ser feita com canetas, pincéis, bico-de-pena, ou até canetas de mesas digitalizadoras. Finalmente, as marcas do esboço são apagadas e o desenho pode ir para uma etapa seguinte de colorização, aplicação de efeitos, letras ou diagramação. Mas o iniciante quase sempre quer que seu desenho à lápis seja feito de traço único, imitando a linha precisa de uma caneta, sem qualquer esboço previo.

Quer copiar em meia hora o que um profissional levou horas elaborando. Ou quer que sua criação tenha o mesmo nível de acabamento. E muitas vezes, ele enxerga assim. E custa a aceitar que o esboço é uma etapa quase inevitável para desenvolver melhor seu trabalho.

Normalmente, uso metáforas pra explicar por quê não adianta ter pressa. Pra quem gosta de esporte, pergunto se é possível um aluno de karatê querer quebrar 10 tijolos com a mão na primeira ou segunda aula. Ou se alguém que está aprendendo a nadar pode, antes de aprender a dar braçadas fortes na piscina, dar um salto ornamental do trampolim olímpico. Se o aluno estuda ou estudou música (como guitarra ou violão), pergunto se apenas com algumas poucas aulas é possível tocar como o Eric Clapton. Todos entendem esses exemplos, mas enxergam o desenho de forma diferente. "Ah, eu desenho assim porque é o meu jeito, o meu estilo." - pensam muitos, fechando as portas da mente para um aprendizado mais consistente.

A maioria dos alunos tem preguiça de pensar, querendo resolver a ideia logo no primeiro esboço. E depois querem finalizar o desenho de cara, ansiosos por ver logo o resultado. O desenho não vai melhorar enquanto o senso de observação não ficar mais aguçado e o aluno ficar mais exigente com o resultado. Mas isso só quem adquire alguma humildade e tem força de vontade vai entender e assimilar.

Lutar contra a própria ansiedade é algo que muitas vezes separa o artista promissor daquele que vai parar no tempo. E é dever de cada professor fazer o aluno entender que o desenho exige disciplina e humildade para realmente progredir. Como tudo na vida.

Segunda-feira, 20 de Abril de 2009

DESENHO DE MÃOS

Em cursos e oficinas de desenho, é comum que alunos mostrem personagens com as mãos nos bolsos ou escondidas. O motivo que muitos alegam é que mãos são difíceis. Alguns gastam horas aperfeiçoando efeitos de brilhos nos olhos (especialmente aspirantes a desenhistas de mangá) e fogem de desenhar mãos. As mãos representam uma parte muito importante na expressão corporal. E em alguns casos, desenhar mãos de modo eficiente pode ser decisivo para pegar um trabalho.

Pra quem pede dicas, não dá pra explicar aqui o necessário sobre estrutura das articulações, coisa que faço nas oficinas e cursos, mas tem um treino muito legal que eu sempre recomendo: desenhe a própria mão em várias posições. Depois, copie os desenhos de modo invertido, como se estivessem num espelho. Assim, você desenha por igual as duas mãos, mesmo com uma só posando, a menos que você seja uma das raras pessoas que são ambidestras.

Copiar de fotos também é bem interessante, desde que se faça também a prática de observação de modelo vivo com a própria mão ou de outra pessoa. Muitos iniciantes se empolgam em desenhar só o que gostam mais e perdem a chance de desenvolver sua arte de modo mais abrangente e com melhores chances profissionais.

Quinta-feira, 9 de Abril de 2009

INSPIRAÇÃO E CRIATIVIDADE

Trabalhando com prazos ou apenas desenvolvendo algo para si, a palavra inspiração é a chave para que o artista consiga produzir com satisfação. Muitos iniciantes se julgam sem talento para criar, mas eu aprendi que isso pode ser treinado, estimulado e desenvolvido. Tanto para escrever como para desenhar é fundamental ter tanto cultura visual quanto um amplo leque de conhecimentos sobre diversas áreas.
Para produzir algo, uma regra de ouro é ser camarada consigo mesmo. Anote, escreva ou rabisque qualquer coisa. Se for idiota ou estranho demais, ótimo! Perceber isso vai ajudar você a tentar outra coisa que soe melhor.
Pra desenhar, é ótimo ver fotos e ilustrações variadas, mesmo coisas totalmente fora da sua linha de trabalho ou estilo. Ver ou ler sobre outras abordagens e realidades pode despertar ideias, rever conceitos ou simplesmente fornecer estímulos mentais. Ler gera estímulos mentais por incentivar a abstração e fornece embasamento sobre argumentos e narrativas.
Sobre a leitura, aquele lugar comum de se recomendar escolher bons autores é bastante relativo. Uma garota com quem trabalhei dizia que lia de dois a três livros por semana. Eram aqueles romances femininos da coleção Sabrina, Julia e afins, cheios de devaneios românticos e suaves metáforas sexuais. Nem vou cair no mérito da pobreza de conteúdo, mas sim da repetição de fórmulas que em nada acrescentam. Ficar deslumbrado com as revelações transcedentais de Paulo Coelho e Dan Brown também não acrescenta muito, mas esse é apenas meu julgamento. Lendo, a gente vai formando valores e conceitos. Sem isso, o trabalho fica vazio. Algumas das pessoas mais talentosas que conheço podem listar um número infindável de livros que leu.
Tem que ver filmes, peças, exposições, conversar com pessoas e, é claro, ler muitos livros, quadrinhos, revistas, jornais... Tudo isso é muito melhor do que ficar apenas navegando no Google. No meu caso, ouvir música é fundamental quando estou desenhando ou pintando. Mas quando estou escrevendo, buscando organizar ideias e palavras, aí preciso de silêncio. Com a regularidade (ditada por prazos ou auto-imposta por disciplina), cada um vai encontrando seu melhor caminho.
A única regra que eu recomendo é: produza bastante. Somente assim, pela quantidade, tentativas, erros e acertos, você terá experiência sobre como gerenciar melhor esse item tão abstrato e perseguido quanto a criatividade.

Terça-feira, 7 de Abril de 2009

DANI - UM PROJETO AUTORAL

Há 10 anos, a Editora Escala estava preparando uma revista de curso de mangá, quando havia pouco material assim em bancas. Seria inteiramente produzida pelo grande mestre Watson Portela. Pra mim, foi oferecido um espaço de 4 páginas como "desenhista convidado", onde eu deveria comentar a narrativa do mangá. Ao invés de um texto com ilustrações, preferi criar uma HQ onde uma personagem iria, em tom de metalinguagem, conversar com o leitor e explicar alguns detalhes sobre mangá de modo bem didático. Nascia a personagem Dani, que logo seria usada numa HQ autoral que tive a chance de produzir.

A Escala lançaria ainda, em 2000, a revista Desenhe e Publique Mangá, onde amadores e iniciantes podiam enviar histórias para serem publicadas. Nos dois primeiros números, profissionais foram convidados (e pagos) para publicar histórias curtas na revista e atrair os leitores. Foi a chance que eu tive para fazer uma HQ diferente do que havia feito até então. Depois de muitas HQs de heróis de tokusatsu (Changeman, Flashman, etc...) e tantas outras sobre Street Fighter, fora um projeto pessoal inspirado em tokusatsu, o Blue Fighter, eu queria fazer algo diferente. Sempre gostei de HQs de cotidiano e queria algo assim, com pitadas de humor e algum drama, mas bem descompromissado. Fiz uma HQ de 9 páginas com a Dani, que saiu no número 2 da revista.

Não fiquei satisfeito com o desenho (quase nunca fico), mas gostei da experiência. Um ano depois, procurei o Jotapê, na época, proprietário da Editora Via Lettera e ofereci-me para produzir um álbum com a Dani. O Jota topou, mas queria ver o material pronto. Passaram-se meses e concluí que não teria muito tempo para dedicar a algo que não daria dinheiro para minha subsistência nem a curto, nem a longo prazo. Resolvi criar uma coletânea com HQs curtas de vários autores e, assim, nasceu o álbum Mangá Tropical, lançado em 2003. Nele, Dani apareceu em uma história de 13 páginas onde pude desenvolver melhor a personagem e colocar algumas características.

Recebi críticas variadas sobre minha HQ. Um amigo disse que a história "não cheirava e nem fedia". Alguns elogiaram a suavidade na condução da história, a narrativa. Um colega disse que a personagem parecia alguém real, o que foi o melhor elogio que ouvi. Porém, alguns bons amigos da área até desconversavam quando eu pedia opinião, de tão ruim que devem ter achado o material. Não houve consenso, mas isso não importa. Até hoje, é um dos meus trabalhos favoritos.

Enfim, resolvi postar a historia em formato PDF em meu site pessoal e também coloquei para download por tempo limitado aqui.

Um dia, quando eu tiver tempo, tentarei fazer mais alguma HQ nessa linha.